segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

Infortúnios Ocultos


                                   Infortúnios ocultos
Este é o item 4 do Capitulo XIII – Não saiba a vossa mão esquerda o que faz a direita.  Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec.
Desde criança, durante as reuniões de Evangelho no Lar, quando caía essa passagem do Evangelho para ler, eu não me segurava em críticas mentais ao cenário.
Aprendi desde cedo o sentido dela, é claro, mas ficar lendo de vez em quando um texto escrito em 1864 sempre me deixava inquieta e das alturas da minha imperfeição, daquilo que falo e penso, acabei voltando ontem à leitura desse texto, até porque ele fica no meio do livro e quando se abre a esmo, geralmente cai nessa página. Dito isso, durante o Evangelho de ontem, caiu novamente a página da dama que sobe o morro, como eu a chamo intimamente e novamente para a contrariedade de todos, eu fiz um comentário sincero de que não gosto de ler essa página. Imagine o clima!?!
Voltei para casa na paz, mas “a Dama que sobe o morro veio junto”, na minha mente meio culpada, como se conspurcasse as palavras sagradas, mas como eu costumo dizer sempre; *Deus me entende*.
A minha implicância com esta passagem do ESE é observar que em dias atuais a postura desta senhora seria bem difícil, para não dizer impossível, dadas as circunstâncias sociais, valores morais vigentes etc., então nesta madrugada, já que a “Dama que sobe o morro” veio para casa comigo e não me deixava dormir, levantei e escrevi o texto abaixo. Resolvi atualizá-la e trazê-la para os dias atuais, sendo que o principal, que é a mensagem da Benemerência e da Caridade, ficou intacta apenas a transcrevi de forma atual.
(versão atualizada)
Todas as semanas um grupo de senhoras bem postadas financeiramente na vida tricotava agasalhos para os pobres, e conversavam alegremente sobre assuntos triviais.
Naquele dia, lá pelas tantas, uma delas comenta que o parente da pessoa que trabalhava em sua residência, sofreu um acidente gravíssimo e a família estava passando sérias necessidades, já que ele era autônomo e ela estava sem trabalhar porque fazia poucos meses tinha tido mais um filho. Ele encontrava-se hospitalizado e a mulher e três crianças estavam vivendo da ajuda dos vizinhos e conhecidos.
Sensibilizadas, todas comentaram sobre o sofrimento que se abateu naquela família, mas uma delas pediu o endereço para ajudar a pessoa de uma forma mais direta, como fazia de hábito.
Dias depois a senhora subia o morro com a filha adolescente e mais o motorista que ficou com a incumbência de anotar o endereço e voltar mais tarde trazendo duas caixas com uma farta sexta básica para a família que ela e a filha iriam visitar.
Lá chegando a senhora se apresentou àquela mãe abatida, que segurava uma criança no colo, enquanto as outras, um pouco maiores, se seguravam nas suas pernas.
Após entrarem na pobre casa, a senhora visitante explicou que soube do acidente do seu marido pela cunhada dela, que trabalha na casa de uma amiga e veio ver em que ela poderia ajudar.
A dona da casa então, em lágrimas, lhe contou da tragédia que havia se abatido sobre a sua família; seu marido é autônomo e faz serviços e pequenos consertos em domicílio com uma moto velha que conseguiram comprar com muito sacrifício para ele poder atender os clientes mais depressa, e até que ele trabalhando muito conseguia sustentar a casa, não deixava faltar o necessário, já que desde o final da gravidez, e enquanto ela não podia colocar o neném na creche, não havia como trabalhar de diarista e ajudar nos gastos, como fazia antes.
Daí que seu marido saiu para trabalhar com a moto num dia de chuva e foi atropelado vindo a se acidentar gravemente. Quase morreu e ainda perdeu o pé esquerdo. Agora nem sei quando vai sair do hospital e quando sair, com certeza nem vai poder trabalhar desse jeito, assim sem o pé.
Muito sensibilizada diante de tanto sofrimento, a senhora abraçando a mulher perguntou se ela e a filha podiam fazer uma oração e ler o Evangelho, no que a dona da casa prontamente concordou.
A jovem abriu no Capítulo V -
Bem aventurados o Aflitos – e passou a ler o item 31 que fala do Proveito do Sofrimento.
Enquanto isso o seu motorista veio deixar as caixas de mantimentos que a senhora havia trazido e voltou para o carro que havia ficado discretamente estacionado ao pé do morro.
Após orarem juntas a senhora saiu prometendo voltar dois dias depois e ainda anotou o nome do marido e do quarto do hospital prometendo visita-lo.
Ao voltarem para casa, durante o caminho, explicou à filha da importância daquele trabalho para Jesus que nos ensinou que todo àquele que a gente alimentasse ou agasalhasse era à Ele que se estava fazendo e que era preciso que sempre olhássemos todos os seres como nossos irmãos, pois todos somos filhos do mesmo Pai. Pois sem amor nada somos. Também explicou que o que tem mais valor como caridade é o nosso tempo oferecido com carinho e atenção aos necessitados, e também o trabalho com as nossas mãos, pois comprar e entregar algum alimento, alguma coisa é muito simples e fácil, é Benemerência, mas doar o seu tempo com dedicação e com o seu carinho, a sua ajuda sincera e doar de si, do seu coração, é doar amor de verdade. Isso é Caridade.
No dia seguinte a Senhora foi até ao hospital visitar o jovem homem, agora mutilado, e mais do que nunca precisando de apoio e ajuda espiritual.
Conversou longamente com ele, ouviu suas queixas e desabafos e tranquilizou-o sobre a sua família, garantindo-lhe que nada lhes faltava e nem deixaria faltar, e que logo ele estaria bem e todos estariam novamente reunidos e que por hora ele só se preocupasse em ficar bom.
No dia marcado ela e a filha voltaram ao endereço da pobre família para dar notícias do marido e foram recebidas com alegria. Fizeram o Evangelho novamente, trouxeram roupas e agasalhos que o inverno se aproximava e assim e a cada semana os laços de amizade foram se estreitando e se tornaram amigas. Quando o marido saiu do hospital a senhora o ajudou com a compra de uma prótese e o ajudou a arrumar um emprego em que não precisasse andar de moto de um lado para o outro...        
 Florianópolis, 03.12.2018