Infortúnios ocultos
Este é o item 4 do Capitulo XIII – Não saiba a vossa
mão esquerda o que faz a direita.
Evangelho Segundo o Espiritismo de Allan Kardec.
Desde criança, durante as reuniões de Evangelho no Lar,
quando caía essa passagem do Evangelho para ler, eu não me segurava em críticas
mentais ao cenário.
Aprendi desde cedo o sentido dela, é claro, mas ficar
lendo de vez em quando um texto escrito em 1864 sempre me deixava inquieta e
das alturas da minha imperfeição, daquilo que falo e penso, acabei voltando
ontem à leitura desse texto, até porque ele fica no meio do livro e quando se
abre a esmo, geralmente cai nessa página. Dito isso, durante o Evangelho de
ontem, caiu novamente a página da dama que sobe o morro, como eu a chamo
intimamente e novamente para a contrariedade de todos, eu fiz um comentário
sincero de que não gosto de ler essa página. Imagine o clima!?!
Voltei para casa na paz, mas “a Dama que sobe o morro
veio junto”, na minha mente meio culpada, como se conspurcasse as palavras
sagradas, mas como eu costumo dizer sempre; *Deus me entende*.
A minha implicância com esta passagem do ESE é observar
que em dias atuais a postura desta senhora seria bem difícil, para não dizer
impossível, dadas as circunstâncias sociais, valores morais vigentes etc., então
nesta madrugada, já que a “Dama que sobe o morro” veio para casa comigo e não
me deixava dormir, levantei e escrevi o texto abaixo. Resolvi atualizá-la e
trazê-la para os dias atuais, sendo que o principal, que é a mensagem da
Benemerência e da Caridade, ficou intacta apenas a transcrevi de forma atual.
(versão atualizada)
Todas as semanas um grupo de senhoras bem postadas
financeiramente na vida tricotava agasalhos para os pobres, e conversavam
alegremente sobre assuntos triviais.
Naquele dia, lá pelas tantas, uma delas comenta que o
parente da pessoa que trabalhava em sua residência, sofreu um acidente
gravíssimo e a família estava passando sérias necessidades, já que ele era
autônomo e ela estava sem trabalhar porque fazia poucos meses tinha tido mais
um filho. Ele encontrava-se hospitalizado e a mulher e três crianças estavam
vivendo da ajuda dos vizinhos e conhecidos.
Sensibilizadas, todas comentaram sobre o sofrimento que
se abateu naquela família, mas uma delas pediu o endereço para ajudar a pessoa
de uma forma mais direta, como fazia de hábito.
Dias depois a senhora subia o morro com a filha
adolescente e mais o motorista que ficou com a incumbência de anotar o endereço
e voltar mais tarde trazendo duas caixas com uma farta sexta básica para a
família que ela e a filha iriam visitar.
Lá chegando a senhora se apresentou àquela mãe abatida,
que segurava uma criança no colo, enquanto as outras, um pouco maiores, se seguravam
nas suas pernas.
Após entrarem na pobre casa, a senhora visitante
explicou que soube do acidente do seu marido pela cunhada
dela, que trabalha na casa de uma amiga e veio ver em que ela poderia ajudar.
A dona da casa então, em lágrimas, lhe contou da
tragédia que havia se abatido sobre a sua família; seu marido é autônomo e faz
serviços e pequenos consertos em domicílio com uma moto velha que conseguiram
comprar com muito sacrifício para ele poder atender os clientes mais depressa,
e até que ele trabalhando muito conseguia sustentar a casa, não deixava faltar
o necessário, já que desde o final da gravidez, e enquanto ela não podia
colocar o neném na creche, não havia como trabalhar de diarista e ajudar nos
gastos, como fazia antes.
Daí que seu marido saiu para trabalhar com
a moto num dia de chuva e foi atropelado vindo a se acidentar gravemente. Quase
morreu e ainda perdeu o pé esquerdo. Agora nem sei quando vai sair do hospital
e quando sair, com certeza nem vai poder trabalhar desse jeito, assim sem o pé.
Muito sensibilizada diante de tanto sofrimento, a
senhora abraçando a mulher perguntou se ela e a filha podiam fazer uma oração e
ler o Evangelho, no que a dona da casa prontamente concordou.
A jovem abriu no Capítulo V -
Bem aventurados o Aflitos – e passou a ler o item 31
que fala do Proveito do Sofrimento.
Enquanto isso o seu motorista veio deixar as caixas de
mantimentos que a senhora havia trazido e voltou para o carro que havia ficado
discretamente estacionado ao pé do morro.
Após orarem juntas a senhora saiu prometendo voltar
dois dias depois e ainda anotou o nome do marido e do quarto do hospital
prometendo visita-lo.
Ao voltarem para casa, durante o caminho, explicou à
filha da importância daquele trabalho para Jesus que nos ensinou que todo àquele
que a gente alimentasse ou agasalhasse era à Ele que se estava fazendo e que
era preciso que sempre olhássemos todos os seres como nossos irmãos, pois todos
somos filhos do mesmo Pai. Pois sem amor nada somos. Também explicou que o que
tem mais valor como caridade é o nosso tempo oferecido com carinho e atenção
aos necessitados, e também o trabalho com as nossas mãos, pois comprar e
entregar algum alimento, alguma coisa é muito simples e fácil, é Benemerência,
mas doar o seu tempo com dedicação e com o seu carinho, a sua ajuda
sincera e doar de si, do seu coração, é doar amor de verdade. Isso é Caridade.
No dia seguinte a Senhora foi até ao hospital visitar o
jovem homem, agora mutilado, e mais do que nunca precisando de apoio e ajuda
espiritual.
Conversou longamente com ele, ouviu suas queixas e desabafos
e tranquilizou-o sobre a sua família, garantindo-lhe que nada lhes faltava e
nem deixaria faltar, e que logo ele estaria bem e todos estariam novamente
reunidos e que por hora ele só se preocupasse em ficar bom.
No dia marcado ela e a filha voltaram ao endereço da
pobre família para dar notícias do marido e foram recebidas com alegria.
Fizeram o Evangelho novamente, trouxeram roupas e agasalhos que o inverno se
aproximava e assim e a cada semana os laços de amizade foram se estreitando e
se tornaram amigas. Quando o marido saiu do hospital a senhora o ajudou com a
compra de uma prótese e o ajudou a arrumar um emprego em que não precisasse
andar de moto de um lado para o outro...
Florianópolis,
03.12.2018













